Estudos desmentem falas de Luciano Huck sobre dependência do Bolsa Família

| UOL


Arquivo - Maria Gonçalves segura o cartão do Bolsa Familia. Petrolina (PE) Imagem: Andre Felipe Folhapress

As críticas do apresentador Luciano Huck à suposta dependência "eterna" de famílias pobres do Bolsa Família são contrariadas por estudos do FMI (Fundo Monetário Internacional), do Banco Mundial, da FGV e do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Os levantamentos mostram, por exemplo, que mais da metade dos beneficiários deixaram o programa social nos últimos dez anos.

 

O que aconteceu

Luciano Huck disse que Bolsa Família desestimula população pobre a procurar emprego. "O prefeito de Senhor do Bonfim [Laércio Júnior (União Brasil)] tem 56% da sua economia no Bolsa Família. O que acontece? Você não gera nenhum tipo de estímulo para que as famílias queiram sair do Bolsa Família, disse o apresentador em fórum da Esfera Brasil, no Guarujá, no último sábado (23).

Na verdade, elas criam um monte de atalhos para conseguir ficar no programa de distribuição de renda e proteção social ad aeternum [eternamente].

Luciano Huck, no Esfera Brasil

 

Estudos contradizem Huck

Cerca de 61% dos beneficiários de 2014 deixaram programa até 2025. As saídas foram observadas principalmente nas faixas entre 15 e 17 anos (71,2%) e entre 11 e 14 anos (60,8%), revela um estudo da FGV (Fundação Getulio Vargas). Adolescentes e maiores de 18 anos continuam recebendo o benefício caso a renda per capita da família permaneça insuficiente. Atualmente, o limite é de R$ 218 por pessoa.

Beneficiários também não pararam de procurar emprego. O mesmo estudo da FGV indica que muitos inscritos no CadÚnico (cadastro de pessoas em vulnerabilidade social) saíram do programa após ingressarem no mercado de trabalho. Entre todos os beneficiários, 28,4% tinham carteira assinada em 2025.

Outro levantamento apontou aumento da taxa de emprego entre beneficiários do Bolsa Família. O programa elevou a ocupação em quase 5%, segundo estudo da FGV em parceria com as universidades norte-americanas de Stanford e Columbia, publicado no início deste mês.

Pesquisa também aponta aumento de produtividade e de oferta de trabalho. "As transferências podem funcionar como investimentos que aumentam a produtividade, em vez de pura redistribuição", afirma o levantamento.

 

Nossas conclusões desafiam a visão canônica de que as transferências de renda desestimulam o trabalho.

Estudo da FGV, Stanford e Columbia

Outro estudo reforça que beneficiários não ficam permanentemente no programa. O Banco Mundial acompanhou famílias entre 2012 e 2019 e concluiu que 23% permaneceram menos de três anos recebendo o benefício, enquanto 40% ficaram mais de sete anos.

Desemprego também caiu entre mais pobres, segundo Ipea. A taxa recuou 4,3 pontos percentuais entre os 20% mais pobres da população entre 2019 e 2023. Nesse grupo, a renda real do trabalho cresceu, em média, 9,5% ao ano — alta acumulada de 43,6% em quatro anos.

Segundo Ipea, programa também ajuda a reduzir subemprego. O benefício médio de R$ 680 dá às famílias margem para recusar vagas extremamente precárias e buscar empregos melhores. O instituto relaciona isso ao crescimento do emprego formal e da renda entre beneficiários do Bolsa Família.

Outro levantamento do Banco Mundial apontou maior participação no mercado de trabalho entre beneficiários. Adultos atendidos pelo Bolsa Família tinham 70% de chance de estar na força de trabalho e 57% de probabilidade de estarem empregados, superando os não beneficiários, segundo pesquisa publicada em 2019.

Benefício também não desestimula trabalho feminino, concluiu FMI. Segundo o órgão, a transferência de renda ajuda mulheres a custear transporte e educação dos filhos, facilitando a busca por emprego. O estudo foi publicado em fevereiro deste ano.

Mulheres chefiam 84% das famílias atendidas pelo programa. "O Bolsa Família parece não reduzir sistematicamente a participação delas na força de trabalho, exceto entre mulheres com crianças de até 6 anos", afirma o relatório do FMI.

Em paralelo, dados do MDS (Ministério do Desenvolvimento Social) mostram que 2,06 milhões de famílias deixaram o Bolsa Família entre janeiro e outubro de 2025. No mesmo período, o programa registrou 18,9 milhões de famílias atendidas, o menor número desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Segundo levantamento, 1,31 milhão de famílias deixaram programa após ultrapassarem limite de renda exigido. Outras 726,7 mil concluíram o período da chamada Regra de Proteção, mecanismo criado para evitar a perda imediata do benefício após aumento de renda ou conquista de emprego formal. Já 24,7 mil famílias solicitaram desligamento voluntário.

Entre principais motivos para a saída do programa estão conquista de emprego formal, aumento salarial e abertura de pequenos negócios. Estudos também apontam que o aumento da escolaridade e a inserção no mercado de trabalho contribuíram para melhorar as condições de vida dessas famílias.

Condicionalidades do Bolsa Família são apontadas como fatores importantes para reduzir pobreza entre gerações. Entre elas estão frequência escolar, vacinação em dia e acompanhamento pré-natal.

 

Pais que têm mais acesso à educação conseguem romper a pobreza que a gente chama de pobreza intergeracional. Então, filhos de pais mais educados também conseguem sair mais do programa.

Valdemar Rodrigues de Pinho Neto, professor de economia da FGV.

Outro mecanismo citado pelo governo é o chamado Retorno Garantido. Famílias que deixam o Bolsa Família têm prioridade para retornar ao programa caso voltem a enfrentar situação de vulnerabilidade social.

Pesquisas apontam impacto positivo na saúde pública. O Bolsa Família evitou 8,2 milhões de internações e 713 mil mortes entre 2004 e 2019, segundo estudo da Fiocruz publicado no ano passado na revista científica The Lancet Public Health. O levantamento estimou queda de 31% nas hospitalizações e de 25% na mortalidade.

Banco Mundial classificou benefício como uma das políticas sociais mais eficientes do mundo. Segundo o estudo, o programa consumiu cerca de 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto) e reduziu a pobreza extrema no Brasil em 28% em 2017.

Após repercussão negativa, Huck afirmou que sua fala "foi tirada de contexto". O apresentador negou ser contra programas sociais e disse defender o aperfeiçoamento constante dos benefícios. "A tecnologia hoje nos permite entender a realidade de cada família e individualizar esses programas para os recursos chegarem de forma ainda mais eficiente a quem realmente precisa", afirmou em publicação nas redes sociais.



Comentários

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE