O senador que trocou de aliados como quem troca de camisa pode ter criado o monstro que vai devorá-lo
Márcio Bittar sempre foi um jogador de xadrez. Calculista. Frio. Movimenta peças no tabuleiro acreano com a convicção de quem acredita controlar o jogo. Mas desta vez, o senador pode ter errado a mão. E o tiro pode sair pela culatra — não só para ele, mas para Mailza Assis e Gladson Cameli junto.
A história começa com uma traição. Aliás, com várias.
O rastro de alianças quebradas
Primeiro, foi Bocalom. O prefeito de Rio Branco, reeleito com votação expressiva, era peça natural do PL na disputa pelo governo. Bittar o estimulou. Deu-lhe sinais claros. Fez o prefeito acreditar que teria a legenda do partido para disputar o Palácio Rio Branco.
Depois, puxou o tapete.
Na hora H, Bittar manobrou para que o PL retirasse a legenda de Bocalom. O prefeito ficou a ver navios. O motivo?
Bittar já tinha outro plano: precisava de um cenário que favorecesse ele — e não o grupo.
Em seguida, veio Alan Rick. O senador que lidera todas as pesquisas para o governo — com mais de 40% nas últimas sondagens — também foi envolvido nas articulações de Bittar. Houve conversa. Houve acordo. E houve, mais uma vez, abandono.
Na última hora, Bittar virou a mesa e foi apoiar Mailza Assis para o governo. A lógica dele é simples e brutalmente egoísta: colar sua imagem na família Bolsonaro e no governador Gladson Cameli para garantir sua reeleição ao Senado. Mailza no governo, Gladson ao seu lado no Senado, Bolsonaro no palanque. O plano perfeito — para ele.
Só que a política não é laboratório. E o efeito colateral das manobras de Bittar já está cobrando o preço.
A jogada da vice: Jéssica Sales como peça sacrificial
Há um lance que pouca gente percebeu, mas que revela o grau de frieza do senador.
Bittar convenceu Gladson de que Jéssica Sales seria o melhor nome para compor a chapa como vice de Mailza. Na superfície, parece uma escolha razoável — Jéssica tem votação expressiva, especialmente no Juruá.
Mas é exatamente aí que mora a armadilha.
Ao colocar Jéssica como vice, Bittar neutraliza seu maior poder: a capacidade de pedir votos para outro candidato aoSenado.
Presa à chapa de Mailza, Jéssica não pode fazer campanha para ninguém que ameace a reeleição de Bittar.
É uma peça sacrificada no altar da ambição de um homem só.
Bittar não pensou em Mailza. Não pensou em Gladson. Pensou em Márcio Bittar.
O bloqueio do PSDB: Aécio Neves entra no jogo acreano
A operação vai além das fronteiras do Acre.Usando sua proximidade com Aécio Neves, Bittar trabalha nos bastidores para direcionar a sigla do PSDB para Alan Rick — e não para Bocalom. A manobra tem objetivo claro: tirar de Bocalom uma legenda viável para disputar o governo, forçando-o a desistir da corrida e, assim, eliminar um adversário do palanque que ameaça a estratégia de Mailza.
É a velha política do “se não posso controlar, destruo”.
Mas Bocalom não é homem de se render fácil.
A reunião que pode mudar tudo
Enquanto Bittar calcula, seus adversários se movimentam.
Nesta tarde, uma reunião pode redesenhar o mapa eleitoral do Acre. Sentam-se à mesa três homens que têm um motivo em comum: a indignação com as manobras de Márcio Bittar.
Tião Bocalom. Alan Rick. Eduardo Velloso.
A informação, obtida junto a fontes próximas de Bocalom e Alan Rick, dá conta de que os três podem sair do encontro com uma chapa fechada e devastadora:
Alan Rick — Governador
Rejane Velloso — Vice-governadora
Mara Rocha e Bocalom — Senado
Eduardo Velloso — recuaria para disputar a reeleição à Câmara Federal
Se essa composição se concretizar, o cenário muda radicalmente.
O fantasma de 2018
Para quem acompanha a política acreana, o cenário evoca memórias de 2018. Naquela eleição, uma chapa unificada da direita elegeu o governador e os dois senadores em primeiro turno. O campo adversário foi varrido.
Alan Rick, com mais de 40% nas pesquisas para governador, tem potencial de repetir o feito. Com Bocalom ao seu lado — trazendo a máquina da Prefeitura de Rio Branco e uma base popular consolidada — e Mara Rocha completando a chapa ao Senado, a soma de forças pode ser avassaladora.
Não se trata de especulação. Trata-se de aritmética eleitoral.
Se essa chapa se viabilizar, Mailza teria que enfrentar, sozinha, um bloco que reúne o candidato mais popular ao governo, o prefeito da capital e uma estrutura partidária robusta. Tudo isso enquanto Gladson corre o risco de ver a segunda vaga ao Senado escapar das mãos de Bittar — e, por consequência, da sustentação do próprio projeto.
O xeque-mate que Bittar não previu
O senador jogou pensando apenas no seu tabuleiro. Estimulou Bocalom e o traiu. Fez acordo com Alan Rick e o abandonou. Empurrou Jéssica para a vice pensando apenas em si. Usou Aécio Neves para bloquear legendas.
E o resultado?
Criou uma frente de revoltados com capital político, estrutura partidária e motivação de sobra para se unir contra ele.
A política acreana já viu esse filme. Quando o poder se concentra demais em uma só cabeça, o corpo se rebela.Bocalom está furioso. Alan Rick está decidido. E o povo acreano, mais uma vez, assiste a um senador que deveria defender o estado transformar a política local em balcão de negócios pessoais.
Se a reunião desta tarde produzir o que as fontes indicam, Márcio Bittar pode ter assinado, com as próprias mãos, a sentença de morte política do projeto que jurou proteger.
O xadrez continua. Mas agora, as peças se movem contra o jogador.
Matéria baseada em informações de fontes internas próximas ao prefeito Tião Bocalom e ao senador Alan Rick.
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